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Março 23, 2020

Joana Assunção

Hoje escrevo sobre  lembranças boas que me fazem sorrir.

Escrevo sobre uma casa grande, antiga, fria devido à sua construção centenária, com janelas enormes, móveis de madeira escura esculpidos com padrões bonitos, entrelaçados a dançarem com a decoração do espaço; com uma varanda espetacular com vista para um quintal enorme, verde e cheio de arvóres e de plantas, com uma horta com couves gigantes, com casinhas onde viviam animais, coelhos, galinhas, porcos e gatinhos.Muitos gatinhos que eram de todos e não eram de ninguém, com um cão velhinho que ao ladrar soava a roquidão, com passáros que por lá andavam a namorar as flores que lá nasciam. Era sempre primavera naquele quintal.

Foi lá que vivi o primeiro ano da minha vida e ali viviam os meus avós paternos .O meu avô um homem alto, forte, nem sempre carinhoso ,mas que eu sei que com o jeito dele, este homem durão me ama; a minha avó igualmente alta, esguia de corpo, de cabelo curto e de um negro tipo carvão, uma pessoa doce, meiga e arrasada pela vida!

No meu quatro ano da escola primária, o meu avó ia sempre buscar-me à escola para almoçar.A ementa pouco variava. Era quase sempre as postas de pescada com legumes cozidos, que eu detestava ou a carne de porco ou de novilho que eles produziam em casa.Bebia sempre e sem excessão o refresco de café que a minha avó fazia com as sobras do café do pequeno almoço.Quase que lhe sinto o cheiro.

A minha avó queria que eu fosse costureira.Era esta a sua profissão.Ensinou-me ponto de cruz, a pregar botões em camisas, a fazer bainhas.O resto não consegui aprender , quis a vida que a sua mente fosse para um lugar longícuo, onde a doença de Alzeimer tomou conta dela. Do meu nome completo e data de nascimento ela nunca se esqueceu.

Antes disto ensinou-me também a passar a ferro, a tirar nodóas das roupas e tantas outras coisas boas.Escrevia-me em papeís as orações às santas em que ela acreditava.Fazia-me ler , decorar e depois recita-las, como se de uma peça de teatro se tratasse.Eu esquecia-me de tudo, a minha atenção estava no quintal , queira ver as flores a balançar numa dança com o vento.

Ela também achava que eu havia de ser pianista! - "Tens dedos grandes e finos filha, são dedos de pianista". 

Contava-me tantas histórias da sua mocidade, levava-me aos sítios por onde ela cresceu e se fez mulher. Tinha orgulho em dizer às senhoras que estavam nas janelas das casas por onde passávamos: "É a Joana, a filha do Zé" .Toda a gente me conhecia, mas ela fazia sempre o mesmo.

Hoje veio-me o cheiro do refresco de café da minha avó.Um cheiro tão intenso como se tivesse viajado no tempo e me encontrasse sentada à mesa da cozinha, de costas para a porta, sem chegar com os pés ao chão a mastigar pela milésima vez a bola da posta de pescada que tinha na boca. 

Ser criança é algo magnífico, mas melhor que isso são as pessoas que nos envolvem com o seu amor e ternura.E pensar eu que um refresco de café me ia vir à cabeça mais de vinte anos depois!

 Não me vou esquecer nunca do teu refresco de café vó Adelaide.

Com amor da filha do Zé. 

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